quinta-feira, 14 de março de 2013

Às armas, cidadãos. Com os hoplitas, os gregos formam um exército constituído de cidadãos livres.

A chegada do hoplita, soldado da infantaria que deve seu nome ao escudo que carrega, causou uma revolução. Privilegiou o choque frontal trazido pela falange em detrimento dos ataques rápidos e breves. A Grécia formou um exército de cidadãos livres e não mais de mercenários ou de escravos.
por Laurent Henninger


Os hoplitas combatiam em conjuntos de milhares de guerreiros, postos em formação tática disciplinada, armados com espadas e lanças, muito bem protegidos. Com este modelo de exército, a vitória passou a ser um feito coletivo, ao contrário da antiga formação aristocrática, que a considerava um feito individual
Há uma dezena de anos, o mundo dos especialistas em Antiguidade grega foi abalado pelo trabalho de Victor Davis Hanson, professor da Universidade da Califórnia. Desde então, as polêmicas não cessaram de circular ao redor das hipóteses e idéias apresentadas no livro O Modelo Ocidental da Guerra, com um subtítulo mais explícito: A Batalha da Infantaria na Grécia Clássica. Examinando de perto o sistema político-econômico das cidades gregas e as narrativas das batalhas de época, o historiador propõe uma teoria que é, desde então, adotada por quase todos os especialistas anglo-saxões em questões militares. Hanson testou suas hipóteses exaustivamente: seus estudantes na Universidade da Califórnia vestiram réplicas de armaduras gregas de metal e, sob o sol do deserto californiano, fizeram exercícios com armamentos de bronze pesando até 35 kg.


Existiria assim um "modelo ocidental de guerra", e os gregos dos séculos VIII e VII a . C. seriam seus inventores. Este modelo se resume da seguinte forma: preferência clara, às vezes dominante, pelo choque frontal e pela batalha decisiva; vontade de obter um resultado claro em prazos reduzidos; vontade de marcar uma separação clara entre o amigo e o inimigo de um lado, e, de outro, o tempo da guerra e o da paz.

Já se sabia que cada povo, cada civilização, possui uma forma particular de fazer a guerra. Os cronistas sempre insistiram neste ponto, e os trabalhos dos antropólogos contemporâneos apenas confirmaram este saber empírico. Mas um "modelo ocidental da guerra", sobretudo aquele que interessava a Hanson, supõe ser comum a um número considerável de civilizações, por vários milênios. Temos, então, o direito de nos questionarmos e de usarmos de prudência intelectual. De fato, não estamos apenas diante de uma arte da guerra tal como praticada por um povo bastante estabelecido em uma época precisa e limitada, pois, segundo nosso autor, os gregos das cidades antigas inventaram um modelo de guerra que foi adotado posteriormente por todas as civilizações ocidentais, de forma mais ou menos consciente. Modelo que encontra, assim, sua conceituação teórica com os escritos militares do general prussiano Carl von Clausewitz, nos primeiros decênios do século XIX, empregados nas hecatombes da Primeira Guerra Mundial.

A tese de Hanson é de extrema importância, não somente porque propõe uma grade de análise de vários milênios de arte da guerra, o que não é pouco, mas ainda porque pretende provar que a "matriz" do Ocidente, que foi a civilização das cidades gregas da era clássica, não deu origem somente aos modelos nos campos político, filosófico, científico e artístico, o que é normalmente admitido há séculos e constitui até mesmo uma espécie de clichê, mas também no campo militar. Será preciso, então, colocar o hoplita grego ao lado de Péricles, Demóstenes, Platão e Aristóteles, como figura fundadora da nossa civilização ocidental.
Revista História Viva

Diante de seus juízes, Jesus se cala

Jesus teve um processo justo? Do ponto de vista estrito do direito romano, não há nenhuma ressalva a fazer sobre a forma como a audiência transcorreu. Esclarecimento sobre os atores do drama.

Yann Le Bohec

A coroação de espinhos. Óleo sobre tela de Franco Velasco, c. 1819.
No Direito romano, um processo é uma peça modesta encenada por três atores apenas: o acusador, o acusado e o juiz. No caso de Jesus, o acusador é, de fato, uma coletividade, que constitui uma pessoa moral, "os grão-sacerdotes e os anciãos do povo" (Mateus, 26, 3). Esses personagens são cortejados pelo Estado romano que apóia sempre e em toda parte os notáveis, mas, ao mesmo tempo, desprezados porque são judeus, isto é, pertencem a um povo vencido.

O acusado, Jesus, pertence à categoria dos "peregrinos": homem livre, ele não possui cidadania romana. Para os romanos, ele não passa de um vagabundo judeu, o que o torna duplamente indigno porque não exerce nenhuma profissão e é - de resto, como seus adversários - descendente de vencidos.

O juiz chama-se Pôncio Pilatos. Esse personagem histórico, bem conhecido aliás, exerce a função de governador da Judéia: encontrou-se uma inscrição mencionando seu nome na construção de um santuário em homenagem ao imperador Tibério (14-37 d.C.). Recrutado entre os cavaleiros, ele é mais versado na arte da guerra e das finanças do que nos assuntos de justiça. Além disso, para tomar suas decisões ele é assistido por um conselho formado de especialistas que não aparece nos Evangelhos seja porque o julgamento não é difícil de sentenciar, seja porque essa instância não desempenhou um grande papel nesse caso. Testemunhas podem ser intimadas; elas constituem, na verdade, o coro dessa tragédia.

Muitas instituições de hoje em dia não existiam no mundo romano, em particular, a polícia, o juiz de instrução e o ministério público (o procurador geral). Dessas ausências decorrem várias originalidades no processo judicial romano. Por exemplo, quando um cadáver era descoberto na rua, ninguém prevenia a polícia, que não existia, e ninguém confiava o caso a um juiz de instrução, que também não existia. Conforme a tradição, os passantes procuravam identificar a vítima e prevenir a família. Era ela que realizava a investigação e que indicava ao juiz a pessoa que considerava culpada. Compreende-se, portanto, que um homem sem família jamais seria vingado se fosse morto. Em seguida, o acusador devia convocar o acusado a se apresentar ao juiz e precisava obrigá-lo, se preciso, pela força, a comparecer perante a justiça. Em geral, as pessoas convocadas para um processo compareciam: não comparecer significava reconhecer a culpabilidade e, portanto, incorrer numa condenação.
O processo de Jesus é, a esse respeito, muito interessante. Os grão-sacerdotes e os anciãos do povo queriam arrastá-lo para o tribunal do governador. Era preciso primeiro encontrá-lo e foi aí que Judas interveio: por trinta denários, prometeu entregá-lo a eles. Disse-lhes que Jesus se retirara para o jardim de Gethsêmani e o indicou para seus contratadores. Esses enviaram seus homens para prendê-lo: "Falava ainda, quando chegou Judas, um dos doze, e com ele uma grande turba, com espadas e bastões, mandada pelos grão-sacerdotes e pelos anciãos do povo" (Mateus, 26, 47). Um de seus amigos tenta defendê-lo e fere um dos atacantes. Mas Jesus se recusa a ser socorrido por meio da violência: "Aquele que empunhar a espada, perecerá pela espada." Todo esse processo está conforme com o direito romano. Em alguns casos, os magistrados municipais enviavam seus escravos, por exemplo, para prender um homem que estivesse fazendo escândalo numa taverna. Ou então, recorriam a milícias locais, a associações de filhos de ricos, os juvenes, que ajudam voluntariamente na manutenção da ordem. Em situações excepcionais, o exército intervinha. Para os soldados se mexerem, era preciso que bandidos estivessem submetendo uma região Nesse caso, a intervenção se caracterizava por sua brevidade e dureza. Mas cada governador possuía uma guarda de honra que lhe permitia, em caso de necessidade, garantir as funções de polícia.

No começo, os romanos proibiam a profissão de advogado. Mas ninguém podia impedir um acusado de pedir a um bom orador, um bom conhecedor do Direito, de o ajudar "amigavelmente" em troca de um "presentinho." Foi assim que Cícero adquiriu celebridade e uma sólida fortuna. Plínio o Moço também advogava bastante: em sua correspondência, que data do início do século II de nossa era, ele menciona freqüentemente os casos em que interveio. Mesmo quando a profissão de advogado foi finalmente reconhecida, era preferível defender-se sozinho: era o indício de que não se tinha nada a temer.

Um dos processos mais conhecidos da Antigüidade teve como cenário Sabratha, na atual Líbia, e se desenrolou por volta de 158. O jovem Apuleio, celebrizado posteriormente como romancista, foi acusado por um membro da família de sua mulher de ter recorrido a práticas mágicas para seduzir aquela que se tornara sua esposa, uma mulher bem mais rica e mais idosa do que ele.
Revista História Viva

Aton, o primeiro deus único do Egito

Há mais de três mil anos, todas as divindades egípcias foram substituídas por um deus único, Aton, o disco solar irradiante, símbolo da vida, do amor, da verdade, arruinando o clero todo-poderoso de Tebas.

Claudine Le Tourneur d\\`Ison

As representações mostram Nefertiti e Akhenaton de forma excêntrica, em sintonia com o espírito inovador do casal
Na história do Egito antigo, não há casal mais sedutor do que o rei Akenaton e sua esposa Nefertiti, no século XIV AC. Por mais excêntricas que fossem suas representações, a sedução não se limita aos seus aspectos físicos. 

Ambos tornaram-se personagens simbólicos da civilização egípcia por terem sido a origem do único cisma profundo conhecido pelo Egito no decorrer de seus três mil anos de história. Destituindo o todo poderoso clero de Amon para impor um deus único, representado pelo disco solar Aton, Akenaton abria pela primeira vez na história da humanidade um caminho rumo ao monoteísmo.

O reinado deste faraó, por muito tempo erroneamente qualificado como "herético", situa-se no fim da efervescente XVIII dinastia, por volta de 1358 AC. A civilização se encontra em plena apoteose. O Egito jamais teve tamanha opulência e refinamento. Após as grandes conquistas de Tutmósis III, o momento é de paz. Amenófis III, pai de Akenaton, soube estender pelo Oriente o poder e o brilho de Tebas, centro de um grande império internacional. 

O deus Amon é venerado. O clero de Tebas está mais onipotente e mais onipresente do que nunca, constituindo um verdadeiro Estado dentro do Estado. Esta situação já havia preocupado diversos soberanos que, em vão, haviam tentado reduzir as ambições políticas dos chefes religiosos. Amenófis III tem consciência do perigo que este contra-poder representa para a realeza.
Desde a descoberta de seu palácio, construído na margem oeste do Nilo, longe de Karnak, o que não era habitual, alguns pesquisadores lançaram a hipótese de uma ruptura voluntária com o clero de Amon. De fato, o nome do palácio significa "A casa de BebMaât-Rá é o disco resplandecente", associando plenamente o soberano ao deus. Tiya, esposa de Amenófis III por trinta anos, já venerava o disco solar Aton mais do que Amon, o deus oficial. 

Na educação dada a seu filho, o futuro Akenaton, ela pregava com força o culto deste deus cujo ideograma reflete a natureza: o olho de um deus celeste, cujo círculo evoca a íris e o ponto central a pupila. É ela quem, uma vez criada a cidade de Akenaton, preferiu permanecer em Tebas para manter o elo entre o clero de Aton e o de Amon, a fim de evitar a invasão popular.

Para o egiptólogo Alexandre Varille, "a revolução de Akenaton foi mais uma reação contra o poder temporal de Amon do que uma modificação profunda da religião. O famoso hino ao sol de Amarna exprime a mesma filosofia unitária de múltiplos textos do mais antigo Egito". Desde o início do período histórico, a religião já estava bastante instituída, refletida e ordenada pelos teólogos. Apresenta uma uniformidade encontrada durante três milênios. 

Esta harmonia intelectual se traduz por uma reflexão teológica jamais interrompida, cuja inspiração jorrava sem cessar de suas próprias fontes. Por exemplo, os textos religiosos gravados nas pirâmides da V e VI dinastia são copiadas nas tumbas do Médio Império e na época da XXVI dinastia, sendo ainda utilizados. Este caráter ímpar pode surpreender tanto que se tem a impressão de lidar com um amálgama de divindades provenientes de todas as regiões do Egito.
Revista História Viva

Biografia Freud: Segredos de Família

O fundador da psicanálise se revela um patriarca exigente e tirânico, cuja vida foi semeada por relações passionais e rompimentos conturbados.

Jean-Pierre Bourgeron

BETMANN/CORBIS/STOCK PHOTOS
Com o charuto, a mais famosa foto do pai da psicanálise (1922)
"Judeu, venha até aqui, gritou o cristão, após haver jogado o meu boné de pele na lama". "E o que o senhor fez?", pergunta o jovem Sigmund a seu pai Jacob. "Apanhei meu boné", responde o pai. Essa cena incomoda a criança, que prefere substituí-la na imaginação pela história de Amílcar, obrigando Aníbal, seu filho, a jurar que o vingaria dos romanos. 

Freud conta esta anedota em sua obra Interpretação dos Sonhos, publicada em 1900. Ela o marca de tal forma que, doravante, ele se torna o herói que ultrapassa o pai humilhado. Igualmente, ele vive sem religião, sem, porém, renegar seu judaísmo.
Sigmund Freud nasce na Morávia, em Freiberg, em 8 de maio de 1856. O pai, Jacob Freud, comerciante de tecidos, casa-se com Amalia Nathanson, em terceiras núpcias. 

Com ela, tem outros sete filhos, depois do pequeno Sigmund. Mesmo sendo o mais velho desta irmandade, Freud já tem dois meio-irmãos mais velhos, nascidos do primeiro casamento de Jacob.

Originária da Renânia, região alemã banhada pelo rio Reno, a família refugia-se na Áustria para fugir das perseguições anti-semitas. Dramas e incidentes marcam o menino. Quando estava com 19 meses, morre seu irmãozinho Julius, 11 meses mais novo. Pouco tempo depois, em 1858, nasce a irmã Anna. Como companheiro, ele tem o sobrinho John, um ano mais novo, filho de seu meio-irmão Emannuel.

O grande choque é a saída de Freiberg, em 1859, para Leipzig, e, mais tarde, para Viena. Freud sofre dolorosamente com as emigrações. A viagem é de trem. Mais tarde, o doutor Sigmund Freud evocará longamente sua fobia por estradas de ferro.


Freud revê os manuscritos de Moisés e o Monoteísmo, publicado em 1939.
Quando ele está com três anos, a família instala-se em Leopoldstadt, o quarteirão judeu de Viena, numa residência na Weissgärberstrasse. É na casa que, aos oito anos, ele vive uma experiência marcante: ao urinar no quarto dos pais, Jacob berra com o menino: "Este garotinho não será nada na vida!". Sigmund faz de tudo para provar que o pai estava equivocado. Aluno brilhante, lê muito, e apaixona-se pela história da França, ainda que seus autores prediletos sejam Goethe, Schiller, Homero, Shakespeare. Por ocasião da Exposição Universal de Viena, em 1873, ele descobre as teorias de Darwin e o ensaio de Goethe "A Natureza", que o leva a optar pela medicina. O funcionamento das células nervosas das enguias machos de água doce: este o tema de sua primeira publicação, em 1877. Estamos distantes dos problemas da psique, da libido e do inconsciente. O encontro com Marta Bernays é determinante para mudar a orientação de sua carreira. Após ter sido zoólogo, ele se torna fisiologista e pesquisador. Pensa em se casar com Marta, por quem se apaixona loucamente, porém, considera pouco satisfatória a sua situação financeira. Ingressa, então, no Hospital Geral de Viena, onde, em 1885, obtém o diploma em neurologia.
Logo em seguida, fica obcecado pela idéia de ir a Paris e seguir os cursos de Charcot, no Hospital de la Salpêtrière. Consegue, então, uma bolsa de estudos e segue para a capital francesa. 

De Paris, escreve para Marta: "Charcot, cujo cérebro beira à genialidade, está prestes a demolir minhas concepções e meus desígnios. Terminada a aula, saio de lá como se estivesse saindo de Notre-Dame, cheio de idéias novas sobre a perfeição."

De volta a Viena, descreve a histeria masculina perante a Sociedade de Medicina. Um integrante da augusta instituição o aparteia: "Parece um conto de fadas científico", e abandona o recinto. Este episódio leva Freud a refletir e, em conseqüência, a abandonar suas teorias sobre o assunto.
Entre 1892 e 1895, Freud começa a explorar os caminhos que acabam se tornando os alicerces da psicanálise. Dois de seus amigos médicos, Josef Breuer, um dos raros a ajudá-lo durante os estudos universitários, e Wilhelm Fliess, instalado em Berlim, estão na origem desta formidável descoberta.

Breuer entrega a Freud o caso de uma paciente, conhecida pelo pseudônimo de Anna O., considerada gravemente histérica. Anna O. é submetida à hipnose para ser liberada de seus traumas. O caso é relatado por Freud e Breuer em Estudos sobre a Histeria.
Wilhelm Fliess, por sua vez, acompanha as conferências de Freud sobre o sistema nervoso e mantém longa correspondência com ele. Nessa troca de cartas, Fliess expõe algumas de suas teorias, como a da bissexualidade nos seres humanos, o complexo de Édipo, as neuroses e a etiologia sexual.
Em Viena, publica suas observações. Às vezes, a correspondência torna-se mais íntima, a ponto de certas pessoas não hesitarem em afirmar que Freud estava enamorado por Fliess.
Revista História Viva

Dossiê Napoleão: A segunda morte do Imperador

Napoleão repousa no Museu dos Inválidos? O escritor Georges Rétif acredita que ele foi envenenado pelos ingleses, que teriam substituído seu corpo no caixão para ocultar o assassinato.

Bruno Roy-Henry


Pomo da discórdia: O corpo que está na tumba do Museu dos Inválidos talvez não seja o do imperador
Santa Helena, 15 de outubro de 1840, cerca de 13 horas. Os generais Bertrand e Gourgaud, Emmanuel de Las Cases e os antigos servidores de Napoleão Bonaparte prendem o fôlego: o que irão descobrir no momento da retirada da tampa da urna funerária? Os 19 anos passados não teriam transformado o corpo num esqueleto hediondo? Não! Para surpresa geral, os restos de Napoleão aparecem milagrosamente conservados.

Em 15 de dezembro de 1840, a França organiza o retorno solene dos restos mortais de seu imperador, na presença do rei Luís Felipe, das autoridades de Estado e daqueles que continuavam fiéis a Napoleão Bonaparte.

Cento e vinte e nove anos mais tarde, em 1969, cabe à República, presidida por Georges Pompidou, conferir pompa à comemoração do bicentenário do nascimento de Napoleão. E é este o momento escolhido pelo escritor Georges Rétif de la Bretonne para escandalizar a opinião pública com sua obra Anglais, rendez-nous Napoléon!, na qual afirma que restos de imperador não repousam no Museu dos Inválidos. A afirmativa é imediatamente refutada pelo coronel MacCarthy, na época curador do Museu dos Inválidos.

A tese de Georges Rétif assim pode ser resumida: os companheiros de Napoleão, não desejando que sua fealdade física fosse legada à posteridade, decidem, depois de informar o governo britânico, substituir a máscara mortuária do herói pela de Cipriani Franseschi, mordomo da casa de Longwood, em Santa Helena, morto em fevereiro de 1818.
A partir desta idéia, o governo inglês acredita que pode levar a fraude adiante substituindo, sem riscos, os restos de Cipriani pelo corpo do imperador. Assim, os despojos de Napoleão foram transferidos para a Inglaterra - onde ainda estariam. Os companheiros de Bonaparte presentes, cúmplices agora, não podem protestar no momento da abertura do caixão, em 15 de outubro de 1840.

Um dos argumentos mais perturbadores apresentados por Georges Rétif recai sobre o estado de conservação do corpo, na exumação realizada em 1840.

Segundo testemunhas, o imperador estava perfeitamente reconhecível, como se tivesse sido mumificado. Ora, seu cadáver fora hermeticamente fechado em um caixão de folha-de-flandres, em 7 de maio de 1821, mais de 49 horas após o óbito. O coração e o estômago foram extraídos no momento da autópsia realizada pelo doutor Antommarchi.

Segundo as testemunhas do sepultamento - Marchand, criado de Napoleão, o general Bertrand, o conde de Montholon e alguns oficiais ingleses -, o corpo do imperador exalava um odor horrível, e seu rosto já estava desfigurado, sinais clássicos de putrefação. O processo de degradação dos tecidos poderia ter sido interrompido a ponto de, aproximadamente 20 anos mais tarde, nos encontrarmos diante de um corpo quase intacto? A ciência médico-legal poderia explicar a interrupção, quase instantânea, da decomposição de um cadáver?

Dentre os pareceres que chegaram a mim, em primeiro lugar é necessário lembrar a avaliação do doutor Vignolles, já falecido, que me escrevia em 1989: Efetivamente, a aparente conservação do corpo de Napoleão traz alguns problemas médico-legais [...]. Entretanto, [...] considero quase impossível que os restos mortais do imperador pudessem estar suficientemente conservados a ponto de serem reconhecidos 20 anos depois. Mais tarde, Vignolles acrescentaria: Contudo, me parece que, frente à precisão dos depoimentos, aqueles que assistiram à exumação de Napoleão estavam na presença de um cadáver previamente ?tratado? (para não dizer mumificado).
Seria ótimo se a medicina legal nos desse uma solução incontestável. Todavia, alguns contestam o estado de putrefação inicial. O doutor Chatenet, médico legista e perito do tribunal de apelação de Poitiers, conclui pela adipocera precoce. Trata-se de um processo de saponificação, pelo qual as gorduras transformam os tecidos em uma espécie de sabão. Muitos indícios levam a esta hipótese, como observa o doutor Chatenet, mas a descrição surpreende pela ausência total de modificação, 19 anos depois. A pele, no caso de adipocera, é marrom, freqüentemente grossa e ?cartonada?. Nada disso ocorre com o corpo exumado de Santa Helena.

Putrefato em 1821, reaparece o corpo em bom estado em 1840

Poderia tratar-se de mumificação? É uma possibilidade. Sob esse prisma, o doutor Chatenet examina a hipótese de o corpo de Napoleão ter sido objeto de embalsamamento sem o conhecimento das autoridades britânicas. Conseqüentemente, é necessário convir que a adipocera é o fenômeno bioquímico que melhor explica a conservação do corpo do imperador.

Resta uma hipótese, considerada pelo doutor Chatenet: o corpo de Napoleão, previamente impregnado de substâncias que contêm arsênico, não sofreu nenhuma putrefação. Hipótese que põe em evidência o dossiê sobre o envenenamento de Napoleão Bonaparte. Ele foi envenenado com arsênico, fato que explica a surpreendente conservação de seu cadáver. Tese reforçada por Ben Weider, responsável pela análise realizada nos laboratórios do FBI ? a polícia federal americana - dos cabelos de Napoleão, retirados em Santa Helena antes e depois de sua morte. Não se pretende reabrir esse dossiê. Notemos que o suposto envenenamento forneceu motivo para as autoridades inglesas substituírem o cadáver.

Entretanto, algumas explicações do coronel MacCarthy são aceitáveis. Às vezes, Rétif de la Bretonne força um pouco a dose. É o que acontece com a famosa distorção observada entre a descrição do sepultamento, que menciona apenas três tampas, e a presença devidamente comprovada de quatro tampas no momento da exumação. Nesse ponto, o militar parece ganhar do escritor. Em contrapartida, a descrição feita por Marchand e Antommarchi da forma como estava vestido o corpo de Napoleão é objeto de controvérsias.
Sabemos que o imperador foi sepultado com a farda habitual de coronel dos Caçadores da Guarda, com o grande colar da Legião de Honra, a cruz de oficial em ouro, a coroa de louros e a cruz da Ordem da Reunião. Os detalhes da vestimenta parecerão fastidiosos ao leitor, mas são essenciais para a compreensão da seqüência.
Revista História Viva

quarta-feira, 13 de março de 2013

Dossiê Egito: O Berço dos Faraós

Precedida por uma dinastia que os arqueólogos convencionaram denominar "Zero", a história do Egito faraônico começa por volta de 3150 a.C. com o rei Menés.



Período tinita (cerca de 3150 a.C. a 2700 a.C.) - I e II dinastias
A história do Egito faraônico começa com o rei Menés, responsável pela unificação entre o Alto e o Baixo Egito e pela fundação de Mênfis, a capital do Império. Interlocutor dos homens com os deuses, Menés ostenta a coroa branca do Alto Egito (hedjet) e a coroa vermelha do Baixo Egito (deshret).

Antigo Império (por volta de 2700 a.C. a 2140 a.C. ) - III e IV dinastias
Nesta época, o Estado egípcio se desenvolve consideravelmente e a sua administração centraliza-se na figura do faraó, que passa a ser venerado como verdadeiro deus. Djoser inaugura a III dinastia (cerca de 2700 a.C.). Seu conselheiro, o arquiteto Imotep, constrói a pirâmide em degraus de Saqqara, a primeira tumba real com essa forma arquitetônica. 

A IV dinastia é marcada por reinados nos quais foram construídas as três grandes pirâmides de Gizé - Queóps, Quéfren e Miquerinos. Esses complexos funerários são o símbolo de um Estado forte e de uma civilização avançada. 

É na V dinastia (aproximadamente 2480 a.C. a 2330 a.C.), originária de Heliópolis, que se verifica o culto ao Sol, o que não significa a rejeição aos outros deuses. O faraó é agora o "filho de Rá", o deus-sol. 

Pepi I, representante da VI dinastia, reina por mais de 50 anos. Ele é também um grande construtor de pirâmides (Bubastis, Abydos, Dendérah). Pepi II sobe ao trono aos seis anos de idade e nele permanece por 94 anos.

Primeiro período intermediário (por volta de 2140 a.C. a 2040 a.C) - VII-X dinastias
Uma revolução, seguida pela invasão de povos asiáticos, põe fim à VI dinastia. Porém, nenhum nome dos reis da VII dinastia é conhecido. A VIII dinastia, a menfita, cuja capital era Mênfis, demonstra os sinais da decadência política do Egito. O país é dividido em três: o Delta, o Egito Médio - cujo centro político era Heracléopolis - e o Alto Egito, agrupado em Tebas. Inicia-se um período de anarquia e de recessão econômica (escassez de alimentos, desordem civil e violência). Uma série de conflitos ininterruptos entre as facções do sul (de Tebas) e do norte (Heracléopolis) ocorrem e cessam apenas na XI dinastia.



A grande pirâmide de Gizeh com a Esfinge
Médio Império (por volta de 2040 a.C. a 1750 a.C.) - XI e XII dinastias
Mentuotep II, rei de Tebas, reunifica o Egito (aproximadamente em 2020 a.C.). Mas são os soberanos Amenemés e Sésostris (XII dinastia, por volta de 1900 a.C. a 1790 a.C.) que conduzem o Império ao seu apogeu. A expansão comercial abre-se para o mar Vermelho, mar Egeu, Fenícia, Núbia e Delta, e o país conhece a prosperidade econômica. Dessa época, há vários manuscritos literários, textos de instruções, profecias e contos.
Revista História viva

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Fantasma de Jack, o Estripador

O Assassino de Whitechapel ainda assombra a pérfida Albion

Jack, o estripador
Os assassinatos perpetrados durante o último mês de 1888, e atribuídos ao maior "serial killer" de Londres, constituem o maior enigma da história criminal. Todas as vítimas foram degoladas, mas o qualificativo de estripador (ripper - rip = rasgar) provém do fato de todas as vítimas terem tido o ventre dilacerado e os órgãos extirpados. É impossível descrever com mais detalhes a natureza dos ferimentos, dado o seu horror.

Buck\\`s Row, 31 de agosto de 1888, 3h40. A viela está iluminada apenas por um candeeiro. George Cross, comerciante, vai para o trabalho. Na calçada, vê algo parecido com um grande fardo. Na verdade, trata-se do corpo de uma mulher. A infeliz teve a garganta cortada de uma orelha à outra. A lâmina penetrou até a coluna vertebral. A vítima tem entre 40 e 45 anos. Segundo o médico que efetua a autópsia, a arma utilizada deve ter sido um punhal, daqueles usados para cortar cortiça ou couro, com uma lâmina de 15 a 20 centímetros. Não há marcas sobre as roupas e os objetos pessoais limitam-se a um pente, um espelho quebrado e um lenço. A polícia identifica o corpo como sendo de Mary Ann Nichols, conhecida por Polly, 42 anos, 1,55 m, cabelos castanhos e um sinal particular, a falta de cinco dentes frontais.

Nascida em 1851, aos 12 anos de idade, Polly Walker casa-se com Nichols, funcionário de uma gráfica. Seis anos de casamento e cinco filhos. Ela é alcoólatra e o casal acaba por se separar. Nichols fica com a guarda das crianças e paga pensão à ex-mulher, até que ela começa a se prostituir. O álcool a deixa violenta, mas o fato de levar uma vida dissoluta e ser agressiva não basta para explicar o seu assassinato. Como primeira hipótese, a polícia acredita na ação de uma gangue de exploradores de prostitutas. No hospital, os policiais interrogam uma colega de Polly, Emma Smith, que fora atacada e espancada por quatro homens. Mas, sem forças para fornecer qualquer informação, morre em conseqüência dos ferimentos. Outra mulher é considerada como a segunda vítima da gangue, ou a primeira de Jack, o Estripador. Martha Tabram, nascida Turner, foi assassinada com 39 facadas e seu corpo encontrado em 7 de agosto, num imóvel em Whitechapel, no edifício George Yard Building (atualmente Gunthorpe Street).
Revista História viva